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Nos bairros pobres da África do Sul as medidas contra a COVID-19 são uma ilusão

Nos bairros pobres da África do Sul as medidas contra a COVID-19 são uma ilusão

“Pedem às pessoas que lavem as mãos, mas [as autoridades] sabem muito bem que não têm água para isso”, diz Ndithini Tyhido, um habitante sul-africano de Khayelitsha, bairro na Cidade do Cabo, onde o confinamento em casa e as medidas contra o coronavírus parecem uma guerra perdida de antemão.
A área metropolitana da Cidade do Cabo, situada no sudoeste da África do Sul, soma mais de 3,5 milhões de habitantes, dos quais um milhão pertence ao pobre e marginalizado bairro de Khayelitsha, segundo os últimos censos no país.
O problema é gritante. Pelo menos dois terços vivem amontoados em barracas improvisadas, não há água corrente, casas de banho, eletricidade ou serviços públicos. Um desafio diário para as autoridades de saúde que pode servir de caldo para um desastre humanitário: o novo coronavírus, a COVID-19, apareceu na África do Sul em março, mas na semana passada foi registado o primeiro caso de infeção em Khayelitsha.
De momento, a África do Sul é o país do continente africano que, oficialmente, tem mais casos de COVID-19, com cerca de 1.400 infetados e cinco mortos confirmados. Para tentar conter a pandemia, o Presidente da República, Cyril Ramaphosa, ordenou aos 57 milhões de cidadãos do país que fiquem em casa até 16 de abril.
Contudo, o confinamento é respeitado nos bairros ricos, mas ignorado nos bairros pobres, apesar da presença da polícia e do exército.
Sem água ou casas de banho a solução é sair de casa
Em Khayelitsha, Irene Tsetse, de 55 anos, garante fazer o possível para obedecer às autoridades. “Somos obrigados a sair quando precisamos de algo”, diz esta mulher, já reformada. “Não temos casas de banho, por isso saímos. Não temos água, por isso saímos. Tentamos ficar na nossa cabana, mas não é fácil.”
Além destes problemas, afirma que, no seu entender, ficar em casa não impedirá a propagação do coronavírus. E porquê? “Há apenas um quarto em nossa casa, sem janela. Não podemos ficar o dia inteiro dentro de casa, no escuro. Em algum momento temos de abrir a porta e ver um pouco o que acontece lá fora”.
Ou seja, habitações que mais não são do que barracas, sem condições sanitárias e onde vivem famílias de seis ou sete pessoas, enquanto as crianças brincam nas estreitas ruas do bairro. Em suma, o confinamento parecer aqui ser um ilusão.
Sem possibilidade de escolha
Nos últimos dias, o governo prometeu dar água a toda a população dos designados “assentamentos informais”, como lhes chamam na África do Sul. Além disso, o ministro de Saúde, Zweli Mkhize, garantiu que equipas móveis vão realizar campanhas de deteção do coronavírus em zonas como Khayelitsha.
Apesar do perigo da COVID-19, Ndithini Tyhido, que dirige uma associação para o desenvolvimento de Khayelitsha, não critica os que não cumprem o confinamento no bairro. “As pessoas gostariam de obedecer, tentam fazer isso”, frisa, “mas é impossível”. Além do mais, Tyhido tem dúvidas sobre a eficácia do programa de deteção que as autoridades prometem implementar. “Se identificarem um caso de coronavírus aqui, não serão sequer capazes de dizer em que casa” [se deu o contágio].
Entretanto, a União Africana (UA) afirmou hoje, dia 2 de Abril, que no final deste mês haverá países no continente africano a ultrapassar os 10 mil casos de COVID-19, tendo avisado que as infecções estão a crescer de forma “brusca” e “consistente”. Os últimos dados apontam para 49 países africanos com casos de COVID-19, num total de 6.213 infeções, das quais resultaram 221 mortes e 469 recuperações.
Em todo o mundo, o novo coronavírus já matou quase 48 mil pessoas, desde que a doença surgiu em Dezembro na China, a que se somam mais de 960 mil infetados.

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