EDITORIAL: Coincidências reincidentes e consequências

EDITORIAL: Coincidências reincidentes e consequências

Em 27 de Novembro de 2013, o Ministério da Defesa de Moçambique qualificou como “boato” informações divulgadas por alguns órgãos de comunicação social sobre o recrutamento compulsivo de jovens para o exército, visando enfrentar a instabilidade no centro do país.”Não constitui verdade que o Ministério da Defesa Nacional ou outras Forças de Defesa e Segurança estão a fazer o recrutamento militar compulsivo para o cumprimento do serviço militar, trata-se de boato visando desacreditar o cumprimento deste dever sagrado para com a pátria pelo jovem”, rezava na altura um comunicado do Ministério. Derivado do facto, muitos jovens evitavam sair à rua na cidade da Beira, capital da província de Sofala, centro de Moçambique, porque receavam ser compulsivamente incorporados no exército e enviados para zonas onde se verificavam confrontos com homens armados da Renamo.O comunicado oficial exortava os jovens a apresentarem queixa à polícia caso fossem coagidos para alegadamente serem integrados no serviço militar obrigatório.  Moçambique vivia por esses dias, a sua pior crise política e militar, desde a assinatura do acordo Geral de Paz, em 1992, na sequência de divergências entre a Renamo e o governo.

Sete anos depois deste terremoto, nova informação de campanha de recrutamento compulsivo passou por Maputo no mesmo período em que decorre o processo do recenseamento militar para os indivíduos nascidos há 18 anos. Incrível. Paradoxal. Fantasmagórico.Verdade ou não, mas o que foi vivenciado na capital do país à semelhança da Beira, constitui um atentado à integridade do país. Diabos à solta no Ministério da Defesa, supostamente a paisana, se fizeram à rua e contra tudo e todos ensaiavam gestos em honra do recrutamento militar para integrar as fileiras do exército nacional nos combates em Cabo Delgado. O que até nem seria mau de todo, sabendo que o cumprimento do serviço militar é prioritário e faz parte da letra da Constituição.

O que causa estupefacção é a Constituição ser alegadamente pontapeada por quem de direito. Voltamos a repetir. Cumprir a tropa faz bem à saúde da pátria. O que faz mal são as coincidências demasiadas e repetitivas. Afinal, quem faz este tipo de boato? Quem são os tais fulanos a que recrutam supostamente jovens para carne de canhão? O que estará por detrás deste gesto feio?

Volvidas muitas luas, o cenário do recrutamento compulsivo reaparece. Apesar de não haver certezas quanto ao sucedido, uma vez o Ministério da Defesa se fecha em copas e ninguém uiva nem tuge sobre as detenções efectuada em relação aos mandantes ou cumpridores da missão, facto que levanta das mais díspares conjecturas. Já ouvimos pessoas a dizer que amigos seus do exército falam de ser este recrutamento uma ordem por executar. Dizem as línguas que não é falsa a informação. Existe recrutamento compulsivo, porque os que estão no tropa não querem combater, e são instrumentalizados a operar desta maneira para safar a pele.Boatos, atrás de boatos, resultantes de ausência de seriedade na forma como são veiculadas as informações. Há muita poeira em redor do recrutamento compulsivo. Não basta ao MDN dizer que se trata de boato. À mulher de César não basta sê-lo. Ela deve parecer. O povão diz que não há fumo sem fogo. Ou seja, algo se passou. O povo não mente. O povo sente. O povo vive.

É preciso ter atenção quanto a estas atitudes. Em tempo de guerra quem tem um olho é rei. O inimigo pode muito bem aproveitar-se destas situações para realmente recrutar e criar pânico. O inimigo está no seio da sociedade, diz o PR em alusão aos mentores da guerra em Cabo Delgado. Os relatos que chegam do Norte, sobretudo desta parcela não são encorajadores para os desígnios de desenvolvimento. Fala-se de uma guerra sem quartel, alimentada fortemente nas redes sociais e sabemos do efeito nefasto destas redes e do seu impacto moral. Há relatos medonhos. E se a difusão de boatos ou a vigência de recrutamentos compulsivos vingar, vamos ter problemas. Vamos ter jovens nas fileiras sem moral. Vamos ter jovens recrutados à força mas que são doentes. Físicos e mentais. Vamos ter um exército de descontentes e a guerra pode terminar cedo para alguns. Posto isto, achamos que não deve haver nenhum recrutamento compulsivo. Quando chegar a sua vez, o jovem deve ser convocado e não raptado. Acreditamos que o Ministério da Defesa anunciou que vai investigar e informar o caso para descobrir a origem, motivações e os autores das informações que lançaram alarme nalguns bairros pois estas acções vão contra as práticas e procedimentos de recrutamento e mobilização estabelecidas pela Lei do Serviço Militar

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