Manuel Bissopo diz que Renamo deve assumir dissidentes acusados de ataques no país

Manuel Bissopo diz que Renamo deve assumir dissidentes acusados de ataques no país

O antigo secretário-geral da Renamo Manuel Bissopo defendeu ontem que a liderança do partido deve assumir os guerrilheiros acusados de protagonizar ataques armados no centro do país, considerando que a solução para conter a violência armada deve ser interna.
“A liderança da Renamo tem de assumir estes guerrilheiros. Esta é solução rápida, viável e que evita a guerra: uma solução interna”, disse Manuel Bissopo, em conferência de imprensa na cidade da Beira, província de Sofala.
Em causa estão os ataques que se têm registado nas estradas nacionais 01 e 06, nas províncias de Manica e Sofala, incursões que já provocaram 21 mortos e têm sido atribuídas à autoproclamada Junta Militar da Renamo (Resistência Nacional Moçambicana), um grupo de guerrilheiros dissidentes do partido que exige a renegociação do acordo de paz assinado em 06 de agosto e a demissão do atual líder Ossufo Momade.
Oficialmente, a Renamo tem-se afastado de qualquer ligação com o grupo, classificando-o de desertor.
Para Manuel Bissopo, a Renamo não pode fugir da sua responsabilidade e o atual líder do partido deve encontrar formas de dialogar com o grupo, dirigido por Mariano Nhongo, um general da guerrilha do partido.
“É preciso inteligência para que se controlem os ânimos. Tem de existir uma solução imediata e interna. Não há como dividir a Renamo em duas”, disse o antigo secretário-geral da Renamo, alertando que se as coisas permanecerem como estão será a “autodestruição da Renamo”.
Por outro lado, Bissopo considera que a desmobilização, desmilitarização e reintegração do braço armado do partido, à luz do acordo de paz, está a falhar, na medida em que o processo está parado e há grupos de guerrilheiros do partido que se sentem excluídos, o que coloca o país em risco de novo conflito.
“O processo de desmobilização não está a acontecer e ninguém está a falar sobre isso. Os soldados da Renamo estão há quase três anos no mato. É preciso que a direção do partido tenha a coragem de resolver este aspeto”, declarou Manuel Bissopo.
Desde agosto, um total de 21 pessoas morreram em ataques armados de grupos nas províncias de Manica e Sofala, incursões que têm afetado alvos civis, polícias e viaturas, atribuídas pelas autoridades a guerrilheiros do braço armado da Renamo que permanecem na região.
Em finais de dezembro, o Ministério do Interior de Moçambique anunciou o reforço de medidas de segurança em Manica e Sofala, que incluem o reforço do policiamento e escoltas em alguns troços, um cenário que remonta ao pico, entre 2014 e 2016, dos confrontos militares na crise política entre o Governo moçambicano e a Renamo.
As incursões acontecem num reduto da Renamo e onde os guerrilheiros daquele partido se confrontaram com as forças de defesa e segurança moçambicanas e atingiram alvos civis até ao cessar-fogo de dezembro de 2016.
O grupo dirigido por Mariano Nhongo, antigo general de Afonso Dhlakama (líder histórico do partido que morreu em 2018), permanece entrincheirado nas matas da região centro de Moçambique.
No domingo, Nhongo ameaçou intensificar ações armadas nas principais estradas das províncias de Sofala e Manica, centro de Moçambique, criticando a tomada de posse hoje dos deputados do partido Renamo no parlamento, enquanto os guerrilheiros permanecem nas matas.
“Tenho informação que os deputados vão tomar posse. Bem aventurados são eles, mas que saibam onde andar. Eu agora não vou poupar mais ninguém: autocarros de passageiros, homem ou mulher, vou bater. Já não há mais brincadeiras”, disse à Lusa Mariano Nhongo, falando em contacto telefónico a partir do centro do país.
Este é o episódio mais recente das divisões no partido após a morte de Dhlakama.
A guerra civil de Moçambique causou dezenas de milhares de mortos, entre 1977 e 1992.
Apesar dos vários acordos de paz que levaram o país ao multipartidarismo, a reintegração dos guerrilheiros nunca ficou resolvida e a Renamo manteve sempre um braço armado ativo, principalmente no centro do país.

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