A ÉTICA NO COMÉRCIO

A ÉTICA NO COMÉRCIO

“TROCA DE BENEFÍCIOS”, é a mais simples definição da actividade comercial.

Desde que o Homem se estabeleceu na Terra e desenvolveu hábitos de vida em sociedade, cada indivíduo sentiu necessidade de se beneficiar dos serviços dos outros, pelo que não estaremos errados se dissermos que a actividade comercial é tão antiga neste Planeta, quanto o próprio Ser Humano.

Antigamente o comércio era feito através de troca de produtos, o que ainda continua sendo feito em algumas sociedades primitivas.

Neste sistema de comércio, as dificuldades que as pessoas enfrentavam centravam-se na indisponibilidade de algum produto que quisessem. Por exemplo, alguém tinha milho, e pretendia trocar por arroz, mas o parceiro de negócio não tinha tal cereal. Isso obrigava a pessoa que tivesse milho a procurar um outro parceiro que tivesse o produto desejado.

Com o crescimento das sociedades cresceu também o movimento de trocas comerciais, o que por sua vez levou à introdução de produtos com valores / preços fixos (como por exemplo cabras, ovelhas, vacas, etc.), isto como base de avaliação dos produtos expostos nas Irocas.

Depois surgiram os minérios, que tomaram o lugar dos produtos e outras mercadorias. Mas com a ampliação da escala do comércio, os governos acharam que esse sistema já não era nem muito viável, nem muito prático, dando então início à emissão de vales que correspondiam ao valor de um certo peso de ouro e de prata, e assim as pessoas começaram a usar essa nova forma de troca / comércio.

Hoje, diferentes formas de comércio desenvolveram-se no Mundo, havendo até rivalidades entre governos, instituições e corporações, tudo para se conseguir controlar e estabelecer grandes monopólios comerciais, o que acaba gerando conflitos de interesse e até mesmo guerras.

O Isslam é uma religião natural, que tudo fez para a conciliação entre a vida material e a espiritual. Ensinou-nos que todo o nosso esforço na vida deve ser direccionado na busca da satisfação de Deus, razão pela qual, por exemplo, o comerciante muçulmano era um exemplo de honestidade, de veracidade, de cumprimento de promessas enfim, de comportamento isslâmico. E a vida dos muçulmanos desses tempos era um modelo para os povos com quem interagiam, o que levou a que muitos não-muçulmanos abraçassem o Isslam ao se aperceberem, pela via do comércio honesto, dos valores que esta nobre religião encerra.

Por exemplo, a Indonésia, que é o maior país isslâmico, bem como os seus vizinhos, abraçaram o Isslam por via do comércio com mercadores muçulmanos. E não só! Na Costa Oriental de África, na maior parte dos países sub-saharianos a religião isslâmica expandiu-se de tal forma, que se estabeleceram governos isslâmicos.

O comerciante muçulmano ganhou a confiança dos povos porque lidava com eles na base do comportamento e moral isslâmicos, e na ética comercial que era seu apanágio.

O Isslam estabeleceu a ética para o exercício do comércio, e bases sublimes às quais as almas se humilham em estima ao Profeta Muhammad (S.A.W.), quando no primeiro “Aqaba” se encontrou com doze homens das tribos Auss e Khazraj (habitantes de Madina) e lhes disse: “Prestai-me fidelidade de que jamais associareis nada à Deus; não roubareis; não cometereis adultério, não matareis vossos filhos; nem acusareis falsamente a alguém; e não me desobedecereis naquilo que é bom”.

Nesse primeiro tratado o Profeta (S.A.W.) estabeleceu todas as cláusulas essenciais para o bom funcionamento de um Estado.

O comércio é um dos serviços, de entre os serviços obrigatórios prestados à sociedade. E quem observa escrupulosamente as suas regras está a praticar uma obrigação para com a sociedade, e também pela causa de Deus.

Esta convenção básica para a sociedade isslâmica abrange a segurança económica e a veracidade (o não-mentir). Tudo isso são bases para o exercício de um comércio justo e nobre.

O próprio Profeta (S.A.W.) também exerceu actividade comercial, para nos mostrar na prática como se aplicam essas regras. Um dos aspectos muito importante que ele tomou em consideração foi o mercado livre, isto é, a oportunidade para todos, e o combate ao monopólio.

A bondade é uma qualidade nobre, que atrai a bênção de Deus, facilita o comércio, e reforça os laços de confiança, o que por sua vez robustece a circulação e a rapidez na rotação do capital, contribuindo assim para o bem-estar de toda a sociedade, em especial do comerciante.

O Profeta Muhammad (S.A.W.) disse: “O comerciante honesto estará na companhia dos profetas, dos verazes, dos mártires, e dos justos”. (At-Tirmizi)

E numa outra narração diz: “O Anjo da Morte chegou para recolher a alma de um homem dos povos anteriores. Então, perguntou-lhe: “Praticaste alguma boa acção”? O homem respondeu: “Não sei”. Foi-lhe dito: “Pensa bem”. Ele respondeu: “Não sei de nada, salvo o comércio (compra e venda) que praticava com as pessoas, no qual eu lhes facilitava, tolerava o rico e protelava (a cobrança) ao pobre”. Então Deus, por esse seu gesto, introduziu-o no Paraíso”. (Al-Bukhari, Musslim)

A veracidade no comércio é algo muito importante, e a mentira elimina toda a bênção no comércio.

Não se deve jurar falsamente como forma de tentar vender qualquer que seja o produto.

Também não se deve açambarcar produtos criando-se assim uma falsa crise no mercado, para depois agravar os preços e obter-se lucros fabulosos. Isto é detestável, para além de que o comerciante muçulmano não deve exagerar nos lucros

E Deus ordena-nos no Qur’án, no Cap. 17, Vers. 35:

“E dai a medida por completo quando medirdes, e pesai com a balança correcta. Isso é melhor e preferível em resultado”.

A justeza no peso e na medida é a base para o desenvolvimento do comércio. Os pesos e as medidas foram estabelecidos precisamente para que ambas as partes fiquem satisfeitas, pois assim nenhuma das partes se sentirá lesada.

Caso o produto tenha algum defeito, é obrigação do vendedor revelá-lo, pois ocultar qualquer defeito é considerado fraude, o que deixa a pessoa fora do Isslam, pois o Profeta Muhammad (S.A.W.) disse: “Quem nos defrauda não pertence ao nosso grupo”.

E não se pense nunca, que doar em caridade o valor proveniente de uma venda fraudulenta é uma forma de se redimir, pois Deus é Puro e Limpo, e só aceita o que é puro e limpo, retirado da riqueza halaal.

Ao se defraudar uma pessoa está-se a prejudicar os outros, corroendo a confiança dos corações.  E sem confiança não pode haver colaboração entre as pessoas.

O Profeta (S.A.W.) recomenda que sejamos bondosos nas cobranças do que nos é devido. Diz: “Quem protelar a cobrança de uma dívida a uma pessoa que esteja em dificuldades, ou mesmo perdoar-lhe, no Dia da Ressurreição Deus oferecer-lhe-á uma sombra”. (Ahmad)

O comerciante muçulmano deve, durante o exercício das suas actividades, recordar-se constantemente de Deus (dhikr), pois isso ajudá-lo-á a evitar tudo o que seja haraam e duvidoso. Deve igualmente evitar lidar com pessoas perversas.

Estas são algumas das qualidades do comerciante muçulmano, qualidades estas que concorreram para que ele fosse modelo, o que contribuiu também para a expansão do Isslam no Mundo, sem que tenha sido necessário o uso de qualquer meio bélico.

(Sheikh Aminuddin Mohamad)

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