“Sabíamos que mexemos no coração do lobo”

“Sabíamos que mexemos no coração do lobo”

Os dezoito presos políticos do partido Nova Democracia (ND) foram, sábado passado,postos em liberdade condicional, mediante o pagamento de 40 mil meticais por pessoa, totalizando 720 mil meticais. Falando ao Zambeze, o mandatário do partido no Distrito de Chókwè, Adelino da Silva Júnior, diz que, desde os primeiros momentos,havia consciência de que se tinha mexido no “coração do lobo” e que a determinação devia caracterizar o grupo.

 Os 18 presos políticos do movimento Nova Democracia foram assistidos por quatro advogados que tudo fizeram para que a quantia exigida pela nossa (in) justiça reduzisse dos 75 mil meticais para cada detido para 40 mil.

Aliás, numa nota enviada a nossa redacção, a ND refere que, quando iniciou a acção de libertação dos 18 jovens detidos em Chokwé, encarcerados em Guijá, transferidos para Xai-Xai e finalmente libertos à 30 de Novembro, nunca imaginou a dimensão da solidariedade e amor que encontraria por parte da sociedade.

Dentre várias entidades que participaram no processo, o partido destaca o sacrifícios e empenho de algumas personalidades e organizações nacionais e internacionais que, desde a primeira hora, mostraram sua disponibilidade para a liberdade dos presos políticos, fruto da intolerância política na província de Gaza.

“A todos os individuais que responderam prontamente ao chamamento da campanha online #Gaza18 contribuindo com o que tinham e, por vezes, acima das suas capacidades para a angariação do valor. Quando iniciámos, estávamos conscientes de que o valor era utópico e não imaginamos o volume de vozes que se iria erguer à volta do assunto. Felizmente, interrompemos as contribuições mais cedo, depois de 48 horas, quando, nos surgiu um caminho alternativo. Somos pequenos demais para citar quanto activistas e humanistasforam as contribuições e temos uma enorme responsabilidade de prestação de contas a vocês relativamente ao tratamento dado ao vosso valor”, diz o comunicado e acrescenta “este processo ainda não terminou e queremos continuar a contar convosco na fase do julgamento”.

Sistema de (in)justiça deficiente

 Adelino da Silva, mandatário da ND no distrito de Chókwé, começou por agradecer o apoio recebido pelo grupo por ele liderado, desde os primeiros momentos. No entanto, lamentou o funcionamento deficitário do sistema de justiça e critica os órgãos de gestão eleitoral, a polícia que, servindo interesses do partido no poder, tudo fizeram para uma detenção injusta daqueles delegados de candidatura.

O mandatário interrogaa flexibilidadeda Comissão Distrital de Eleições em menos de cinco horas do dia 15 de Outubro ter sido capaz de identificar alegadas falsas credenciais, paraas investigações não conseguir apurarao certo em que momento teria havido a falsificação.

Para Da Silva há uma incoerência no que respeita o cumprimento da Lei, como sendo obrigação de uns e não de outros, uma questão crucial para a democracia.

É que, havendo ainda diligências no terreno no sentido de se apurar os factos para a formulação da acusação, era suposto que os dezoito delegados de candidatura da ND não fossem detidos, para além de que gozavam da imunidade naquele processo de fiscalização eleitoral, o que em nenhum momento foi observado.

“Durante o processo da nossa detenção no dia 15 de Outubro, os órgãos de gestão eleitoral iam recebendo instruções e nós discordávamos com parte dessas instruções por violarem a lei eleitoral, ao perceberem que tínhamos conhecimento da lei accionaram o seu braço militar, que é a polícia para viabilizar planos obscuros”, precisou Adelino da Silva.

Da Silva acrescenta ainda que as leis no nosso país aparecem como uma isca para caçar o pacato cidadão, pois, quando os delegados de candidatura da ND pensavam que a lei poderia prover protecção, não aconteceu, desde a proibição de acesso aos advogados e contacto com as famílias, a própria detenção que aconteceu justamente no dia da votação em que se apresentavam para monitorar o processo, tentativa de inviabilizar o desenvolvimento do processo de forma deliberada pelas autoridades.

“O nível da preparação de nossos delegados assustou o partido no poder”

 Houve preparação e estratégicas desenhadas ao pormenor para fazer frente a fiscalização pela Nova Democracia na província de Gaza, o que para Da Silva pode ter incomodado o partido no poder que considera aquela província seu bastião.

Quando os presidentes das Mesas de Assembleia de Voto, precisou Adelino da Silva, receberam os delegados de candidatura, nas primeiras horas do dia da votação, ficou uma imagem clara de que, pela primeira vez na história das eleições, em Chókwè, recebia-se um delegado à altura de fiscalizar, preparado e informado, que sabe como é que as coisas devem proceder legalmente.

“A nossa frente de fiscalização era bem alinhada, porque na verdade nós não encontramos pessoas na rua e da rua para as mesas, mas fizemos um trabalho de casa, de mobilização e capacitação sobre a legislação eleitoral”

“Transformamos a cadeia em escola de reflexão política”

 Apesar de condições desumanas das penitenciárias em que estiveram detidos durante 45 dias, o mandatário diz que cada dia era uma escola para reflexão sobre desafios da democracia do país, com o sentido de que deviam sair da cadeia com mais garra, ou seja, a cadeia que era para intimidar transformou-se num campo de reflexão para enfrentar o sistema vigente.

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