fbpx

A Paz adiada de Donald Trump

A Paz adiada de Donald Trump

No passado sábado, através do seu habitual meio de comunicação – o Twitter – o presidente Donald Trump anunciou que a cimeira até aqui secreta entre os líderes da guerrilha Talibã e o Presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani, prevista para o fim-de-semana de 7-8 de Setembro em Camp David, não teria lugar.

Isto porque os Talibã, num ataque suicida com um carro armadilhado, em Kahul, mataram 11 pessoas, entre elas um soldado americano e feriram várias dezenas.

“Depois do ataque, cancelei imediatamente o encontro e parei as negociações de paz. Que tipo de gente é que mata tantas pessoas para fortalecer a sua posição nas negociações?” – escreveu Trump.

Há mais de um ano que o representante americano, o general Zalmay Khalizad, vem negociando, em Doha, capital do Qatar, com os representantes dos talibãs. Foram, até agora, nove rondas intensas de negociações. Estas conversações, em que o governo de Ghani nunca participou, destinavam-se a criar condições para uma retirada progressiva dos 14.000 militares americanos do país, pondo termo a uma das mais longas guerras em que os Estados-Unidos participaram. Segundo o roadmap em discussão, cinco mil homens do contingente norte-americano retirariam nos 135 dias imediatos ao Acordo. Os restantes 9.500, mais os 8.500 de tropas de países da NATO, fariam uma retirada faseada nos meses seguintes.

Deste modo, a Administração Trump esperava acabar com uma guerra longa, que já custou aos Estados Unidos mais de 2.400 mortos militares e que custa por ano 30 biliões de dólares.

Do lado dos talibãs, esperava-se a garantia de que não dariam asilo ou cobertura aos movimentos extremistas do Estado Islâmico e da Al Qaeda e que avançariam para conversações directas com o governo de Kabul, possivelmente em Oslo.

Não esqueçamos que a intervenção americana no Afeganistão deu-se depois dos atentados de 11 de Setembro de 2001, quando os Estados Unidos retaliaram contra o que consideravam ser a base de Osama Bin Laden e da Al Qaeda e apoiaram a chamada “Aliança do Norte”, que em poucas semanas expulsou os talibãs do poder e ocupou Kabul.

Os acordos agora frustrados, aparentemente com grande alívio do governo de Kabul (que se via como vítima do negócio bilateral Washington-talibã) tinham gerado bastante oposição em Washington, entre políticos democráticos e republicanos. Na verdade, recordavam eles, já antes do 11 de Setembro os talibãs tinham prometido controlar os terroristas da Al Qaeda e o seu líder Osama Bin Laden.

A equação afegã é extremamente complexa. O país nunca foi um Estado nacional, é mais um conglomerado de tribos, algumas guerreiras, que no século XIX e no século XX deram que fazer aos impérios britânico e russo e mais tarde aos soviéticos. E, depois, pelos vistos, aos americanos. Neste complexo de tribos, os talibãs têm forte ligação à famosa ISI – (Inter Services Intelligence), a agência da intelligence paquistanesa que, desde os anos oitenta, teve um papel decisivo no conflito interno afegão. Diz-se que os negociadores talibãs no Qatar iam recebendo indicações do QG do ISI em Islamabad.

A questão também é a própria fragmentação do Afeganistão e o consequente problema da representação e legitimidade. Os talibãs, essencialmente, são Pashtun, uma tribo sunita que representa 40% da população e que defende uma linha de islamismo puro e duro, rejeitada por outras etnias e também pela parte da população mais educada e urbanizada – especialmente pelas mulheres, que não querem ser governadas pela Sharia.

Para além deste problema, há as consequências do princípio aberto pelas negociações agora canceladas por Trump. Se se negoceia com os talibãs, porque não negociar, também, com o Al-Shabab, a filial da Al-Qaeda na Somália? Não seria abrir o precedente para os grupos armados de que quanto mais aterrorizarem mais terão a ganhar? Um precedente perigoso também para a África subsaariana, onde vários países, incluindo Moçambique, são vítimas de operações violentas de grupos armados radicais.

Outro problema muito sério é a droga. Para o Word DrugReport de 2018, o Afeganistão é o maior produtor de opióides do globo.

O que irá acontecer às negociações?

Depois do cancelamento do encontro de Camp David, o Secretário de Estado Mike Pompeo veio deixar uma mensagem subtil de que, apesar da suspensão do encontro, as portas poderão reabrir-se. Tudo isto se dá nas vésperas das eleições, marcadas para 28 de Setembro, que os Talibã têm procurado evitar.

A oposição ao encontro era também significativa entre os republicanos, com vários políticos do Partido Republicano repetindo que não se devia confiar nos talibã nem fechar acordos com quem não renunciasse à violência, lembrando as inúmerasvezes em que os talibãs já tinham garantido não dar abrigo aos terroristas da Al Qaeda – como quando eram governo, antes do 11 de Setembro de 2001. (Jaime Nogueira Pinto)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *