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Conflito em Cabo Delgado na base de escolhas de Ramaphosa para diplomacia

Conflito em Cabo Delgado na base de escolhas de Ramaphosa para diplomacia

O conflito em Cabo Delgado e as suas ramificações regionais foram decisivas para as escolhas, pelo presidente sul-africano Cyril Ramaphosa , dos novos chefes de missão da África do Sul em Moçambique e Tanzânia . Fontes sul-africanas consideram-nos, na prática, enviados especiais do presidente, com o estatuto de embaixador.

Geraldine Fraser Moleketi, de 60 anos de idade, será a nova embaixadora da África do Sul em Moçambique. Segundo apurado junto de fontes sul-africanas, pertence à comunidade indiana sul-africana.

Geraldine Fraser Moleketi foi ministra da Administração Pública (1999-2008), tendo anteriormente desempenhado o cargo de vice-ministra do Desenvolvimento Social (1996-1999). No ANC, partido do Governo, desempenhou cargos de topo, nomeadamente o de membro do Comité Executivo Nacional. O seu marido, Jabu Moleketi, também exerceu funções ao nível do Governo, como vice-ministro das Finanças.

Geraldine Fraser Moleketi é apontada como ligada à ala radical do Partido Comunista da África do Sul (SACP), envolvendo-se no combate político muito jovem em Claremont, sua terra natal, próximo da Cidade do Cabo .

Em 1980, durante o curso na Universidade de Western Cape, decidiu abandonar o país, auto-exilando-se no Zimbabwe. Foi eleita para o Comité Central do (SACP) em 1988. Dois anos depois, em Julho de 1990, regressou à África do Sul com a legalização do SACP, contribuindo para a instalação do partido a nível nacional e participando nas negociações entre o Partido Nacional , no Governo, e o ANC , de Nelson Mandela .

Entre 1994-2008, foi também deputada. Já no ANC, na sequência da demissão do Presidente Thabo Mbeki em Setembro de 2008 , GFM foi um dos 14 membros do Governo que apresentou a demissão, apesar de posteriormente ter recuado, mostrando-se disponível a permanecer do cargo. Contudo, acabou por ser substituída.

Desempenhou também funções no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a partir de 2009, como directora do Democratic Governance Group . Posteriormente, até 2016, foi enviada especial do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) para questões de Género, baseado na Costa do Marfim.

É figura pouco consensual entre os quadros de diplomatas sul-africanos, que apontam para indícios de crueldade no seu passado de “guerrilheira”, durante o qual recebeu treino da URSS e de Cuba, nomeadamente episódios de tortura de prisioneiros nos centros de detenção que o ANC possuía em Angola, antes de 1990, onde Geraldine Fraser Moleketi residiu durante alguns anos.

Lesedi Billy Masetlha, de 66 anos de idade, ex-director do Serviço Secreto Sul-Africano ( South African Secret Service – SASS ) e antigo conselheiro presidencial, será nomeado embaixador na Tanzânia, vizinho norte de Moçambique e país-chave na resolução do conflito em Cabo Delgado.

Lesedi Billy Masetlha teve um mandato atribulado no SASS nos anos 2000, acabando por ser demitido pelo Presidente da República. Foi acusado de ter forjado e-mails e de espiar, sem a devida autorização, uma figura sagrada do ANC, Saki Macozoma. Lesedi Billy Masetlha alegou que este e outros membros do ANC estariam em conluio com serviços de inteligência estrangeiros, incluindo britânicos, norte-americanos e israelitas. O processo terminou nos tribunais e num inquérito parlamentar e Lesedi Billy Masetlha acabou por ser absolvido.

Lesedi Billy Masetlha aderiu ao ANC, então ilegal, em 1975, tendo partido para o exílio na Zâmbia em 1979. Entrou igualmente no Comité Executivo do ANC em finais de 2012.

Apesar da valorização da questão de Cabo Delgado por parte da “troika” da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) com a presença de Moçambique, as sucessivas cimeiras têm terminado sem consenso quanto a medidas de contenção conjuntas.

As relações entre Moçambique e a Tanzânia atravessam um momento de tensão, com aumento do contingente militar tanzaniano na fronteira comum, para impedir o retorno dos “jihadistas” ao seu território, “varrendo” o problema para o território moçambicano. O Presidente tanzaniano John Magufuli foi um dos ausentes mais notados da tomada de posse do presidente moçambicano, Filipe Nyusi, em 2019.

A escolha de dois diplomatas sul-africanos para Moçambique e Tanzânia é atribuída por fontes consultadas sobretudo ao conflito em Cabo Delgado e respectivos efeitos para a África do Sul e região.

Enquanto potência regional, a posição da África do Sul será determinante na resposta ao apoio pedido por Moçambique, designadamente da SADC, na qual a União Africana (UA) delegou a decisão.

A falta de recursos dos membros da SADC, acentuada pela actual crise sanitária e económica causada pela pandemia de Covid-19, soma-se a divisões internas sobre a abordagem ao conflito em Cabo Delgado.

O Zimbabwe e a Tanzânia lideram as duas alas na SADC sobre Cabo Delgado: o primeiro com uma posição favorável ao envolvimento regional; o segundo contra iniciativas que possam disseminar o problema pela região. A posição da África do Sul será decisiva na harmonização das diferentes posições.

Contactos entre responsáveis dos governos de Moçambique e Zimbabwe sobre a situação em Cabo Delgado acentuaram-se desde início do ano, depois de, conforme apurado, Júlio Jane , director do Serviço de Informações e Segurança do Estado (SISE) se ter deslocado a Harare para entregar uma mensagem de Filipe Nyusi a Emmerson Mnangagwa , presidente zimbabueano.

A cooperação militar entre os 2 países é antiga e a presença em território moçambicano da Zimbabwean Defence Force (ZDF) chegou a atingir os 7.000 homens nos anos 1980 , empenhados no apoio à Frelimo no combate à Renamo . Na década seguinte, com a contenção do conflito civil, tropas zimbabueanas foram colocadas ao longo do corredor da Beira, situação que poderá agora repetir-se.

Na actual situação de pandemia, com restrições à circulação em vários países, o corredor da Beira voltou a ganhar importância estratégica para o Zimbabwe, contrastando com a menor relevância dos portos da África do Sul e Tanzânia.

Em paralelo, o Zimbabwe tem vindo a aumentar a sua dependência energética em relação a Moçambique, com a importação de electricidade e combustível, a partir do porto da Beira e de cereais, sobretudo milho, por via ferroviária, em resultado do colapso da economia do país, agravado pela situação de seca.

Para Pretória, é particularmente relevante no conflito do norte de Moçambique a actuação da empresa militar privada Dyck Advisory Group (DAG), ao serviço do Governo de Moçambique, e cujo contrato foi recentemente renovado.

O “forcing” em curso dos EUA sobre a participação do esforço em Cabo Delgado poderá transformar a província numa região fortemente militarizada. À luz da lei sul-africana, a presença de mercenários do país em Moçambique é ilegal porque não foi previamente aprovada e os operacionais da DAG correm o risco de serem detidos no regresso à origem.

A RAS foi já objecto de uma referência num dos últimos comunicados do Estado Islâmico/ ISIS, ameaçando retaliar contra o país em caso de envolvimento, mas a influência efectiva no terreno do ISIS é, não obstante a propaganda, diminuta.

A DAG é dirigida e parcialmente detida por Lionel Dyck (LD), coronel na reserva, que serviu na força aérea da antiga Rodésia do Sul (hoje Zimbabwe), mas que manteve intactos contactos activos com o regime de Robert Mugabe e com Emmerson Mnangagwa. Conforme reportado, a DAG desencadeou acções de recrutamento de mercenários para combate no terreno, tendo sido avançado um total de 90 operacionais para desdobramento em Cabo Delgado. Os mercenários pertencem à MINETECH Zimbabwe, fundada por Lionel Dyck, filial do grupo britânico de desminagem e segurança privada MINETECH International. (África Monitor/Zambeze)

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