Pior seria ficarmos em casa sem fazermos nada

Pior seria ficarmos em casa sem fazermos nada

  • Não estamos desapontados, é preciso compreender que fomos encontrados em contra-pé, não estávamos preparados – Gabriel Ismael Salimo

 

Egídio Plácido

O ministro da Ciência e Tecnologia, Ensino Superior e Técnico profissional (MCTESTP), Gabriel Ismael Salimo, considera que a continuação de aulas com recurso às plataformas digitais não foi de todo satisfatório, no entanto, diz estar confortado com o que foi feito, até ao momento, porque o pior seria se o ensino fosse interrompido na totalidade.

O governante, em entrevista ao nosso semanário, acrescentou que um dos grandes constrangimentos detectados, durante o processo de aulas online, foi a utilização de plataformas tecnológicas alojadas fora do país, o que tornava o processo oneroso para as operadoras de telefonias móvel que funcionam no país. Acompanha a conversa que a nossa reportagem teve com o ministro da Ciência e Tecnologia, Ensino Superior e Técnico profissional.

Vivemos um período extremamente desafiante com a pandemia provocada pelo novo coronavírus e que deixa suas marcas em toda parte. A nível do seu ministério qual é o grau de prontidão, principalmente para área do ensino Superior e Ensino Técnico Profissional?

Em relação ao momento em que vivemos, para a questão da pandemia em particular, o ministério desde o primeiro momento criou uma série de normas para ajustar ao período actual. Então, logo a priori, com esta questão de distanciamento social não era possível haver aulas em regime presencial. Era preciso manter as actividades académicas através de uso das tecnologias. O Ministério orientou a todas as instituições a usarem os meios digitais existentes, porque algumas já usavam no ensino à distância, que permitissem criar evidências. Tínhamos que ter a capacidade de cada um mostrar se deu ou não deu aulas e depois porque no retorno temos que ter plano e com base naquelas evidências, como é que deu e o que não deu, tínhamos consciência de que haveria um grupo que não teria acesso por várias razões. Depois também haveria um grupo que teria aulas, mas não teria acesso a aulas práticas que não se pode fazer por intermédio de via digital, o nosso país não está preparado. Havia outra componente também de um grupo que tinha aulas e tiveram as avaliações que não foram presenciais, então tínhamos isso em vista e orientamos as instituições e demos esta questão de forma metodológica. Nestes três grupos, no retorno das aulas, não se pode usar a mesma fórmula para todos.

No período em que iniciámos este Governo e com entrada da pandemia nós, como Ministério, através do Conselho Nacional do Ensino Superior (CNES), que é um órgão que nos assessora, composto por todos reitores. Normalmente, no CNES não fazem parte estudantes, mas por ser esta altura particular incorporamos também os estudantes em termos de representação, para perceber e assumirmos melhor as decisões. Uma das questões levantadas neste conselho foi logo a questão da internet.

A primeira coisa que fizemos foi uma aproximação às operadoras para vermos se conseguiríamos ter redução destas taxas e felizmente conseguimos. A todos elas deram internet ilimitada. Para a Vodacom não se pagava nada, para Tmcel e Movitel pagava-se 100 meticais por mês.

Para ter acesso pedimos para que as universidades enviassem a lista dos estudantes. Era preciso registar e o processo iria levar muito tempo. Nós aqui no ministério criamos um software que possibilitasse a ligação directa com as operadoras. Este acesso era para os estudantes, professores, investigares e o corpo técnico administrativo.

No entanto, soubemos que tínhamos grandes problemas de acesso aos estudantes. Existem muitas plataformas de ensino e o hábito das pessoas é que as plataformas que usam estão instaladas nos servidores que estão fora do país. Isso obriga que as operadoras usem a rede internacional. A Vodacom, por exemplo, cortou porque estava caro para eles porque o pedido era para o uso da rede interna. Reunimos com as universidades e criamos uma comissão a nível do ministério que trabalhava com as universidades para configurar para rede nacional. No entanto, algumas universidades não estavam preparadas e o ministério disponibilizou o servidor do Estado, instalado em Maluana (distrito da Manhiça). Aumentamos também a capacidade, porque estávamos a lidar com todas as universidades, de um giga para 6.5 gigas e a situação melhorou. É verdade que algumas instituições, por várias razoes, mesmo tendo centro de informáticas não tem pessoas capacidades. Outras criaram resistência, continuam a usar plataformas que estão alojados fora do país.

 

Numa avaliação preliminar, o MCTESTP está satisfeito com o que foi feito neste período em que as aulas presenciais estão interrompidas?

Não estamos desapontados, porque é preciso compreender que fomos encontrados em contra-pé, não estávamos preparados. Há a conjuntura de que o Governo acabava de tomar posse e estávamos a tentar criar uma dinâmica diferente. Há algumas fraquezas que já tínhamos identificado e queríamos corrigir, porque esta questão de uso de tecnologias para a comunicação era uma questão complementar. Um estudante de ensino superior não é possível se formar com as condições que temos, sem biblioteca ou sem acesso aos recursos digitais.

Avaliando este período, meses de interrupção não iria dizer que foi positivo, mas não é de todo negativo porque, pelo menos, conseguimos manter as instituições em funcionamento. O pior seria se não tivéssemos feito nada e o estudante ficasse muito tempo hibernado, o processo de recuperação seria muito difícil. De certa forma, ele esteve em contacto com os professores, de uma forma ou não manteve contacto com as matérias.

 

A questão de fundo, neste momento, é saber se haverá realmente condições para voltarmos a ter aulas em regime presencial?

Por causa das incógnitas, como não depende de nós e não dependente de alguém que podemos perguntar, há toda uma conjugação de factores. Nós criamos cenários, os estudantes estavam a ser assistidos por plataformas digitais e criamos três grupos de estudantes: aqueles que nunca tiveram contacto, aqueles que tiveram contacto teórico falta a prática e aqueles que tiveram contacto e falta avaliação. Começando hoje as aulas teríamos que fazer o plano de recuperação.

Em relação a pandemia em si não se sabe quando e como vai passar e se continuar durante muito tempo o que temos que fazer? Temos que continuar acompanhar o que está acontecer em outros países. Os outros abriram e depois fecharam. Existe até uma comissão que vai verificar o que estamos a fazer. As escolas têm que criar as condições que todos nos já sabemos, distanciamento social, regras de higiene.

Cada um esta a fazer plano em função das capacidades. As escolas são diferentes há uns que tem anfiteatros. Num anfiteatro podem entrar 20 estudantes ou 30. Um anfiteatro de 100 pode entrar 50 estudantes. Há todo um plano em que todas as universidades estão a fazer por escrito de como estão a organizar-se para que a partir do dia D implementar.

 

Esta pandemia veio de certa forma desafiar as instituições de ensino e de investigação a darem uma resposta socialmente útil. Acha que as nossas universidades e toda comunidade científica nacional estão realmente preparadas para responder aos desafios do país?

Sim. Os problemas que temos no país, em termos de investigação, são dois. Uma coisa é o financiamento e a outra são investigadores. A investigação não pode ser feita por um grupo de licenciados como a maioria. Mas curiosamente em relação a esta pandemia houve uma resposta positiva. A UNISAVE, por exemplo, criou um ventilador. Mesmo que nós tivéssemos dinheiro não teríamos onde comprar. Aí os investigadores no geral responderam positivamente. É verdade que as respostas das academias levam certo tempo, porque é preciso fazer e ter maturidade. O ISCTAC produziu 600 litros de álcool gel e eles estão a oferecer nesta primeira fase. Os institutos criaram as torneiras com pedais.

Estamos todos a responder a alguns problemas do país. O que acontece é que não estávamos a orientar bem a investigação, não tínhamos uma agenda. É preciso termos uma agenda nacional, por exemplo, elegermos temas como seca e criar um grupo de pessoas que permanentemente estão a fazer a investigação. Isso já vinha como plano quinquenal. Esta questão da Covid-19 veio nos desafiar a acelerar.

Antes tínhamos o desafio de fazer compreender a sociedade que as tecnologias são importantes, hoje em dia esta parte da alfabetização o corona nos ajudou um pouco. As pessoas já vêem a questão de forma diferente.

Mas para que tudo isso tenha algum sucesso é necessário que haja janelas de financiamento para investigação…

O Fundo Nacional de Investigação (FNI) pertence ao Ministério da Ciência e Tecnologia, Ensino Superior e Técnico Profissional e tem essas janelas. Mesmo agora fizemos e temos sete projectos que estamos a apoiar exactamente para Covid-19. O que temos que fazer é orientar e criarmos a agenda daquilo que são os nossos propósitos e depois vamos apresentar isso como carteira. Mesmo agora temos projectos.

O FNI propôs dinheiro e se tivéssemos já organizado não haverá problemas em termos de financiamento. O que vamos fazer é agregar e orientar para aquilo que são exactamente as nossas necessidades do país. Muitas das vezes o que fazíamos era apanhar uma boleia de um investigador e fazer investigação porque está na moda. Como eu disse, qualquer Governo tem de ter mais atenção nesta questão das tecnologias e investigação. Acredito que o orçamento também possa melhorar porque há mais capacidade de dialogar e mostrar o quanto é importante o uso da tecnologia e investigação, porque estamos a ter resultados em que as pessoas acreditam que é possível fazer.

Achamos que existe, de certa forma, pouca divulgação dessas investigações….

Estamos a mapear e criar uma base de dados de quem está a fazer e onde está a fazer. Nós temos o FNI, temos o CITT que tem feito várias coisas. Há este problema de divulgação. Nós já fizemos uma aproximação para tentarmos criar espaços com os órgãos de comunicação. Estamos também a pensar em fazer um evento, que ainda não temos o nome, em Maluane, onde teremos espaço exposição sobre ciência, inovações ciência e tecnologia, sobre saúde, agricultura, saúde, etc…

Queremos trazer os inventores, os empresários e o Governo para que haja interligação. Desde o princípio do ano vamos lançar os desafios específicos.

Relativamente ao centro de Manhiça, o que efectivamente se pretende?

Ali há duas coisas. Existe o parque que é uma ideia muito bem concebida. É uma zona franca e pretende-se iniciativas tecnológicas de jovens, as chamadas incubadoras que se instalem ali porque não tem custo. E depois, há uma questão de partilha de informação. Tudo o que é tecnologia é ensaiado como referência e depois disseminado.

Temos ali centro de dados de Maluane, o chamado Governo electrónico. Tem a função de agregar tudo que é informação do Governo e não só. Temos agregado informação do Governo em servidores fora do país e isso por si não garante a soberania. Aquele centro foi criado exactamente para que tudo que é nacional seja hospedado ali. Neste momento estamos a operacionalizar.

Neste momento, também estamos a mapear porque, durante muito tempo, por questões óbvias, fomos fazendo uma e outra coisa e não há ligação. O desafio a curto e médio prazo é agregar tudo para que no fim se crie o chamado portal do cidadão em que você senta em casa olha para todos os ministérios.

 

O novo Governo toma posse no início deste ano e numa altura em que iniciava o processo de organização político-administrativo, fomos surpreendidos por esta pandemia. Quais são os pontos fortes que o Ministério pretende atacar durante o quinquénio?

Numa primeira fase pode parecer que estamos aqui quase que adormecido, mas é o Ministério que tem suportado o próprio funcionamento do Governo, em todas as áreas. Temos no ensino técnico profissional a formação para o emprego da camada jovem. O objectivo é formar para resolver os problemas imediatos. Nós mudamos, inclusive, o currículo, de um currículo tradicional para o currículo para competências. Antes o estudante ficava do primeiro a terceiro ano para sair ir trabalhar. Agora no primeiro ano ele sai com uma competência, pode ir trabalhar, no segundo também pode ir trabalhar, até terminar a formação técnica.

Mais do que isso estamos a mudar, conjugando com outras parcerias, para criar e formar este jovem com competências internacionais. Estamos a ter desafio com as multinacionais que estão a ir buscar pessoas de fora com alguma razão. Mesmo para Estamos a equipar os nossos institutos, já temos equipamento de ponta montado que respondem os desafios.

Apetrechamos laboratórios e Oficinas Reabilitados e apetrechados 6 Laboratórios das áreas de Electricidade, Electrónica Solos e Material de Construção, Comando Numérico Computorizado (CNC), Desenho Computadorizado (CAD) e informática; e 9 Oficinas, nomeadamente, Electricidade (4), Mecânica (3) e Construção Civil (2), no Instituto Industrial e Comercial de Inhambane; que possibilitarão o acesso de 225 Jovens ao Ensino Técnico na área de Hotelaria e Turismo e, assegurarão a qualidade de ensino e aprendizagem com a operacionalização dos laboratórios e oficinas, que vão beneficiar cerca de 900 formandos deste subsistema de ensino.

A outra linha é formação de formadores de modo a respondermos os desafios colocados pelas multinacionais.

No ensino superior temos que criar qualidade. Isso significa que temos que ter universidades orientadas para o actual cenário. Os currículos devem ser ajustados no que é hoje e pensando no futuro. Neste momento estamos a creditar os nossos cursos para que tenham qualidade. Estamos a organizar as nossas universidades internamente. Tem de haver mobilidade. Se você está a estudar numa universidade e quer ir a outra é capaz de não lhe aceitar. Então, para que isso funcione efectivamente é preciso ter medidor então quem tem esta é a função do Conselho Nacional de Avaliação da Qualidade do Ensino está a creditar os cursos.

Outra coisa que estamos a fazer é mobilidade dos próprios professores. Muitas das vezes quando nos falta um técnico vamos contratar de fora. Mas não, podemos contratar numa universidade para outra.

Temos que potenciar os laboratórios. Se cada um fazer o seu pode ser muito oneroso. O que queremos fazer são laboratórios de referência que sejam partilhados. Estes são os nossos grandes desafios.

Relativamente aos estudantes queremos implementar o projecto um estudante um computador. Para isso vamos chamar empresas para produzir os computadores dentro do país para o tornar mais barato. A ideia é que o preço do computador esteja incluído na propina ou taxa que possa pagar em prestações.

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