Editorial: É ou não é?

Editorial: É ou não é?

Nas comemorações de mais um aniversário da Independência nacional (passam já 45 anitos) e trinta e quatro anos depois da sua morte, ainda ecoa no mundo moçambicano a voz de trovão, crítica e sobretudo de grande amplitude social. A voz de Samora Machel. Porque o tempo corre e as diferenças na mesa se vão acentuando no quotidiano nacional, com uns a comer o dobro e outros a ver a banda passar, no presente editorial, e com a devida vénia, reproduzimos excertos do pensamento de Suleimane Cabir sobre esta personalidade de inequívoco valor.

“…É preciso entender que não podemos nem endeusar, nem mistificar Samora Machel, mas apontar alguns aspectos extremamente marcantes daquele que até hoje vive, embora fisicamente não esteja presente, pelo seu exemplo, seu rigor e sobretudo pela profunda preocupação e quase que obsessão que ele nos incutia para agarrarmos com responsabilidade e com rigor, sem receios de cometermos erros e construirmos este país do nada. Samora e a Frente de Libertação de Moçambique tiveram de gerir um país, logo à partida, completamente falido. O rigor que ele tinha para com os interesses nacionais, em relação à continuidade de construção deste país, a ética relacionada com a melhoria das condições de vida de cada cidadão e sobretudo uma disciplina rigorosa naquilo que fazemos em termos profissionais e uma ponderação sempre equilibrada em relação às opiniões diferentes faziam dele um embondeiro.

A sua personalidade é aquela grande motivação que ele nos transmitia a nós jovens, de sempre nos superarmos, sempre fazer melhor e ter em primeiro lugar as pessoas, o povo, os cidadãos. Samora Machel incutiu em nós que, em primeiro lugar, todo o esforço e todo o benefício deve ser para as camadas mais pobres, para as camadas mais humildes, para as camadas que não têm grandes possibilidades, incluindo, naturalmente, duas questões fundamentais que ele sempre indicava, batia e rebatia: a educação, partindo da própria alfabetização, não só dos jovens mas dos velhos. A personalidade de Samora Machel era uma personalidade em que a pátria estava em primeiro lugar, as pessoas em primeiro lugar, a responsabilidade e o rigor eram divisas que podiam parecer, para alguns “slogans”, mas na prática era o que nós na altura assumimos com rigor.

Samora era um líder carismático. Ele conseguia levantar as pessoas que nada tinham, mesmo naquela altura de grandes dificuldades, de grandes sabotagens de que o país era vítima. Levantar milhares e milhares de pessoas, devido à sua clareza, sua transparência e sua objectividade. Ele explicava de forma clara, para que todos com qualquer nível educacional compreendessem a mensagem e os valores sobretudo de ética, de responsabilidade, de justiça e de solidariedade…”

Hoje o país comemora o seu quadragésimo quinto aniversário da Independência, e no cenário nacional, o PR, Filipe Nyusi, tem referido vezes sem conta o resgate do direito à dignidade, à cidadania e a uma pátria, destacando que a independência nacional devolveu o direito de sermos donos dos nossos próprios destinos, recursos e do lugar que merecemos no concerto das nações. O Chefe de Estado lembra a visão, a entrega e a determinação de homens e mulheres de honra, valor e fibra que a 25 de Junho de 1962 sonharam com um Moçambique livre e independente. Mas, nas comemorações do aniversário, a apatia e a ausência de entusiasmo, aquele entusiasmo contagiante que nos eram característicos não se fazem sentir. O povo está ausente. Distante. Por razões óbvias. A guerra em Cabo Delgado não abre tréguas para o cultivo da terra, na zona centro a pseudo Junta Militar faz das suas, obrigando ao recolher obrigatório, num cenário em que a palpitação era o cântico da produção familiar com horizonte de excedentes para venda. A estes dois fenómenos, hoje se junta a pandemia da Covid-19 que obriga ao ensaio de coisas que nunca estiveram no horizonte popular.
Os tempos mudaram. A Independência já não é mais criança. Claro que não somos saudosistas. Compreendemos a dinâmica das sociedades, pois a vida, como dizia alguém, não é estática, as pessoas evoluem, tem ambições, e todos têm o direito de serem ricos. Mas é preciso acomodar os que não recebem a côdea de pão. Nem que seja de quando em vez. Num ano em que Mondlane, o obreiro da revolução completa 100 anos, e Samora 87 anos, apenas dizer. A luta continua! É ou não é?

 

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