Editorial: Cem anos e a necessidade de divulgar legado do Dr. Mondlane

Editorial: Cem anos e a necessidade de divulgar legado do Dr. Mondlane

A História de Moçambique regista acontecimentos que marcaram o percurso de um povo pelos caminhos da liberdade, em que se destacaram líderes que ousaram superar o medo para enfrentar as forças da opressão que submetiam milhões de moçambicanos à escravidão.

Na trajectória da luta heróica, que conduziu o povo à Independência Nacional, pagaram com a vida milhares de patriotas que, decididos, e em circunstâncias adversas, combateram ao colonialismo, até  à vitória final, anunciada a 25 de Junho de 1975, data da independência nacional. A luta de resistência ao colonialismo é plena de feitos em que avultam gestos de primeira grandeza protagonizados por nacionalistas de diferentes regiões e que não hesitaram em aderir ao combate a um regime desumano e explorador.

Os combatentes pela independência vivos e falecidos mostraram, na guerrilha ou na clandestinidade, que sempre valia a pena o sacrifício para se conseguir a liberdade e a dignidade. Para esses combatentes era impossível renunciar à luta pela defesa da dignidade dos homens e mulheres. O movimento de libertação de Moçambique que, a partir dos anos 60 do século passado, enveredou  por uma contínua luta armada contra o colonialismo, constituiu a demonstração de que os povos oprimidos não temem a adversidade quando se querem libertar das masmorras da opressão.

Os combatentes pela liberdade e independência estavam animados pela fé na vitória sobre um inimigo que não cairia sem luta. Corajosos e determinados, os nacionalistas souberam contornar obstáculos vários ao longo da dura luta de resistência ao colonialismo, para o que contribuiu a capacidade de liderança do pai fundador da Nação, o Dr. Eduardo Mondlane, cuja entrega à causa de libertação nacional marcou uma viragem decisiva na construção da vitória sobre o inimigo. Eduardo Mondlane é uma referência incontornável da luta de libertação de Moçambique e foi sem dúvida graças às suas qualidades excepcionais de líder que se conseguiu ultrapassar barreiras  que pareciam intransponíveis, ao longo da luta armada, até a data do seu assassinato a 3 de Fevereiro de 1969.

A vida e obra do Dr. Eduardo Mondlane são hoje recordadas não só por moçambicanos, mas também por outros povos do mundo, que reconhecem a sua extraordinária visão, quando se tratava, particularmente, de definir rumos que conduzissem à libertação total de África. Mondlane colocou a sua pedra nos alicerces que têm permitido construir uma sociedade melhor para todos os povos e durante o seu percurso político percebeu que a dignidade da pessoa humana era um valor supremo, por que todos deviam lutar, custasse o que custasse.

O fundador da Nação partira para uma frente que haveria de retirar os moçambicanos da situação dramática de extrema miséria, ele que compreendeu que tinha de agir e de dar a sua contribuição à queda de um regime injusto, para que imperasse uma nova ordem social, por via da liquidação do que era retrógrado. Sob o lema – A luta continua – estava a voz do combatente incansável que estava consciente de que a missão  para libertar o homem africano da opressão tinha de continuar, mesmo que  para isso  tivéssemos de consentir mais sacrifícios. Pena que Mondlane não viveu para assistir à liberdade, mas os esforços que empreendeu e os sacrifícios do povo para que se concretizasse essa libertação serão para sempre lembrados em toda a África. Mondlane, a julgar também pelos depoimentos que se ouvem neste seu centenário, era um homem de acção, que enfrentava as dificuldades com muita serenidade e determinação, quer como guerrilheiro, quer como humano. Para ele, a defesa dos interesses do povo tinham de estar sempre acima de quaisquer outros.

Sábado comemora-se o 100º aniversário do nascimento do primeiro Presidente da Frelimo, numa altura em que o país se encaminha para uma fase em que valores exaltados por Eduardo Mondlane estão bem presentes. Trata-se de uma data que não é apenas observada numa altura em que todos os moçambicanos se congregam para os principais desafios do país, mas igualmente numa altura em que a paz e a estabilidade cimentam os caminhos da reconciliação, da materialização de políticas com impacto na vida das populações. A construção da pátria inclusiva com o contributo de todos os moçambicanos, a dignificação externa do país, entre outros atributos, faz parte da realidade actual de Moçambique.

Lado a lado com o centenário, temos de ressalvar
que quarenta e cinco anos passam depois da independência e, neste quadro, o país manteve a sua integridade territorial, a sua soberania e independência, graças ao empenho de cada moçambicano e das instituições do Estado. Há obstáculos. Tem havido transtornos no percurso, mas a estes percalços assumimos que a luta continua. Sendo vasta e rica a obra e os feitos do Dr. Eduardo Mondlane, é preciso que seja amplamente divulgada sobretudo entre as gerações mais novas para que se possa perpetuar o legado, sendo o centenário uma oportunidade para reflexão em torno dos seus ensinamentos, da sua dimensão humanística e política rumo ao desenvolvimento tendo como objectivo fundamental a construção de uma sociedade livre, justa, democrática, solidária, de paz, igualdade e progresso social.

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