Tensões com Tanzânia Devido a Crise em Cabo Delgado

Tensões com Tanzânia Devido a Crise em Cabo Delgado

Apesar da valorização da questão de Cabo Delgado por parte da “troika” da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) com a presença de Moçambique, reunida em 19 de Maio, com apoio do PR do Zimbabwe, Emmerson Mnangagwa, nenhuma medida concreta deverá sair do encontro e não se vislumbra consenso perante o risco de importação da violência.
As relações entre Moçambique e a Tanzânia atravessam um momento de tensão, com aumento do contingente militar tanzaniano na fronteira comum, para impedir o retorno dos “jihadistas” ao seu território, “varrendo” o problema para o território moçambicano.
O PR tanzaniano John Magufuli foi um dos ausentes mais notados da tomada de posse de Filipe Nyusi, em 2019. Conforme apurado, a intervenção da empresa militar privada Dyck Advisory Group não tem estado isenta de problemas afectando a sua eficácia: os operacionais rejeitam operações conjuntas com os militares das FADM por falta de confiança, à semelhança do que ocorreu com os mercenários russos da Wagner numa fase final.
Esta situação levou à paralisação das operações da Dyck Advisory Group durante vários dias na 2ª semana de Maio. Em aberto está ainda a continuidade da Dyck Advisory Group a partir do início de Junho de 2020 face aos termos do contrato original, que previa 2 meses de operações.
Maputo poderá tentar colmatar o final do contrato com o recurso a forças militares da região, sob a tutela da SADC. A implantação dos grupos “jihadistas” no terreno tem revelado uma maior estruturação da respectiva organização e da própria comunicação junto das populações, começando a definir-se um “programa político” (destruição do Estado e implantação de um califado através da lei islâmica) que indicia que a implantação “jihadista”, com maior ou menor capacidade armada, não deverá ser eliminada no curto prazo.
A condição de inoperância e impreparação das FADM e FDS tem vindo a evidenciar-se, sendo atribuída por fontes do sector da segurança a factores com: – Falta de profissionalismo das chefias, muitas das quais capturadas por interesses e rendas resultantes de actividades ilícitas paralelas; – Desmotivação dos soldados; – Elevado desperdício no investimento público nas FADM, por falta de fiscalização do Estado e baixo nível de renovação das lideranças; – Ministério da Defesa e Serviço de Informações de Segurança do Estado (SISE) afectados pela mudança de “clãs” que acompanham flutuações políticas internas na FRELIMO; – Falta de liderança do PR, criticado no partido, assumindo já tardiamente a gravidade do conflito em Cabo Delgado; – Debilidade das estruturas do poder/ administração provincial e local, incapazes de assumirem a função de protecção das populações; – Intenções por parte das elites provinciais, com ramificações em Maputo, para a venda de segurança privada às multinacionais em Cabo Delgado, ao abrigo do princípio do “conteúdo local”, contribuindo para abordagens contraditórias na região.
Sem capacidade militar para fazer face ao avanço dos militantes e sem plena confiança em alguns dos comandantes no teatro das operações, Filipe Nyusi promoveu em Abril uma dezena de jovens do primeiro curso da Academia Militar Marechal Samora Machel de Nampula, de Major para Tenente-Coronel. Em 2021, 254 cadetes serão admitidos ao curso de oficiais.
A aproximação a Pemba, o centro político e económico da província, em Abril motivou uma reacção de Maputo, mas tardia.
O processo de islamização e de radicalização iniciou-se em distritos do litoral (Mocímboa da Praia, Quissanga ), evoluindo gradualmente, face à ausência do Estado, para o interior e norte da província em direcção a Muidumbe, Macomia, Bilibiza, Diaca e finalmente Pemba. Cercada pelas células armadas em Abril, Pemba é o centro nevrálgico de Cabo Delgado, além de refúgio de milhares de refugiados em fuga das zonas atacadas e destruídas pelos “jihadistas”.
Os refugiados foram infiltrados por “jihadistas”, que foram passando informações tendo em vista a preparação da ofensiva. Maputo reagiu com a contratação de mercenários sul-africanos e elevou CD a prioridade política com a convocação do Conselho Nacional de Segurança e Defesa, antecipando o envio de reforços para a região, apoiados por meios aéreos privados.
A intervenção militar de emergência estancou o avanço dos grupos armados e empurrou-os para norte, em direcção a Awasse, Quiterajo, Muidumbe, Diaca, onde se continuam a registar ataques, saques, e raptos.
Uma solução eficaz para o problema deverá ter em conta a exclusão dos jovens da região no acesso a emprego, além da rivalidade histórica em agudização entre as etnias maconde e mwani com sentimento de perda pelos últimos. Os privilégios atribuídos aos maconde, nomeadamente através da facilitação de negócios com o Estado e da atribuição de pensões vitalícias ao abrigo do estatuto de antigo combatente, agravaram o sentimento de revolta entre as restantes etnias.
Estas condições tornaram os estratos mais jovens da população da província facilmente recrutados pelo proselitismo islâmico alternativo, que se foi infiltrando gradualmente na região, inicialmente através de elementos provenientes sobretudo do Quénia e Tanzânia, falantes de swahili .
Tratavam-se de homens geralmente bem preparados, vários deles licenciados, com bolsas de trabalho de campo da Arábia Saudita, e que criaram uma rede de culto muçulmano paralelo às confrarias formais, com novas ideias e abordagens. Muitos dos “imigrantes” acabaram por se estabelecer na região, sobretudo localidade costeiras, onde abriram negócios, muitas vezes recorrendo ao micro-crédito.

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